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Receita dos EUA para inflação é o contrário do que o Brasil faz

Por Rodrigo Spada e Victor Lins

postado em 14/10/2022 17:49 / atualizado em 14/10/2022 17:50

Olhar para como países desenvolvidos resolvem questões com as quais estamos nos debatendo é um bom jeito de buscar soluções para nossos problemas. Em agosto, Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, sancionou um pacote para redução da inflação. Já que sofremos desse mal, não custa nada examinarmos a proposta.

O pacote é amplo. Tem medidas voltadas ao combate às mudanças climáticas, à redução dos preços de medicamentos, ao aumento de determinados impostos corporativos e à redução do déficit público.

Surpreende que parte significativa da resposta para a redução do déficit seja diametralmente oposta ao receituário brasileiro. Enquanto aqui respondemos com o corte irrefletido de custos da administração pública, os EUA propõem o contrário: investimento pesado na administração, especialmente a tributária, para aumentar a receita.

Serão investidos US$ 80 bilhões nos próximos dez anos na administração tributária com o objetivo de modernizar sistemas e contratar cerca de 87 mil novos servidores, dobrando o efetivo do órgão. Com o investimento, o governo espera aumentar suas receitas em US$ 124 bilhões. Ou seja, 17% dos quase US$ 740 bilhões que os EUA vão gerar de novas receitas decorrem do investimento em pessoal para a administração tributária. É um número expressivo e uma prova de que a contratação de auditores fiscais é rapidamente revertida em receita.

Enquanto os americanos investem pesado, o Brasil reduz seu gasto com servidores ao menor patamar em 26 anos, congelando salários, precarizando estruturas importantes e barrando concursos públicos. Com isso, não conseguimos repor os auditores que se aposentam nas administrações tributárias nem dar conta de acompanhar tecnologicamente as novas formas de evasão e sonegação.

Com novos servidores e novas tecnologias, a administração tributária dos EUA terá condições de investigar e taxar da forma devida o capital que se organiza em estruturas complexas justamente com o objetivo de se desviar do pagamento de tributos.

Temos repetido isso há muito tempo: investir na administração pública, como se vê agora na maior economia do mundo, traz resultados positivos ao governo – mas, para isso, o governo precisa ter a mínima capacidade de olhar além de suas pretensões eleitorais.

Por Rodrigo Spada e Victor Lins, Auditores Fiscais da Receita Estadual de São Paulo, e, respectivamente, presidente da Associação Nacional das Associações de Fiscais de Tributos Estaduais; e vice-presidente do Conselho de Representantes do Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de São Paulo (Sinafresp)

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Artigo publicado na e na edição de 14/10/2022 do jornal O Estado de S.Paulo. Leia a versão digital: https://www.estadao.com.br/economia/eua-combate-inflacao-diferente-do-brasil-leia-artigo/ 

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