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Do grito de gol à reforma tributária, é preciso unir o país

Por Rodrigo Spada

postado em 16/11/2022 11:38 / atualizado em 16/11/2022 11:38

Em novembro de 2008, o republicano John McCain, que disputou a presidência dos Estados Unidos contra o democrata Barack Obama, fez um discurso a apoiadores reconhecendo a vitória do adversário no pleito. No começo de sua fala, McCain foi vaiado ao parabenizar Obama. Pediu silêncio à plateia e seguiu, em admirável republicanismo, orientando seus eleitores a fazerem um esforço sincero para superar as diferenças e apoiar Obama na empreitada comum de “deixar a nossos filhos e netos um país mais forte e melhor do que herdamos”. Foi, então, aplaudido.

Ao fim de processos eleitorais, é natural que o tecido social fique esgarçado, mas é fundamental que, terminada essa etapa, as lideranças políticas – mesmo as derrotadas – trabalhem para restabelecer o diálogo, diminuindo o tom dos ataques e dando demonstrações públicas de reconhecimento do mérito e da autoridade do vencedor. Derrotado nas eleições, o presidente Jair Bolsonaro não deu esses sinais para seu expressivo eleitorado. 58 milhões de brasileiros que votaram no presidente seguem sem uma indicação clara de que a disputa eleitoral acabou e de que a partir de janeiro o país estará sob novo comando, eleito democrática e legitimamente.

Se Bolsonaro se omite, tomemos para nós o trabalho de cerzir o tecido social. É tarefa indispensável para superarmos os desafios que temos pela frente. Sem essa reconciliação desperdiçaremos importante energia na infrutífera troca de acusações contínua e em um proselitismo político de objetivos sectários e resultados insuficientes.

Temos desafios reais que precisam de coesão social para serem superados. Exemplo inequívoco são as grandes reformas de que o país precisa. Atentemo-nos à reforma tributária, que tem sido objeto de constante estudo e debate na Febrafite.

O projeto de reforma contido na PEC 110 – que tem como diretriz principal a instituição de um modelo dual do Imposto de Valor Agregado (IVA) – atingiu um nível de consenso inédito entre pesquisadores, setor produtivo, entidades representativas do Fisco, governadores e prefeitos. Os importantes apoios que angariou deram tração política à proposta, que passou a ser analisada e debatida com seriedade no Congresso Nacional. O ano eleitoral, entretanto, desacelerou sua tramitação e o texto está estacionado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal. Um debate maduro que leve em conta os interesses de toda a sociedade é condição necessária para dar novo impulso ao texto. Esse é um tipo de discussão que não é possível em um país profundamente dividido.

Assim como não chegamos nesse nível de tensão social de uma hora para outra, não sairemos dele repentinamente. O trabalho de coser é feito ponto a ponto. É um exercício individual e coletivo de baixar as armas, de abandonar o léxico da guerra retórica que se trava nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp e nos almoços de domingo e de recalibrar nosso olhar para buscarmos mais o que nos une do que o que nos afasta.

Fiquemos atentos às oportunidades. A Copa do Mundo começa em breve e um grito de gol uníssono, um abraço de comemoração naquele compatriota que há poucos dias víamos como alguém do outro lado do muro são uma boa chance para curarmos nossas fraturas.

Rodrigo Spada é Auditor Fiscal da Receita Estadual de São Paulo e presidente da Associação Nacional das Associações de Fiscais de Tributos Estaduais – Febrafite. É formado em Engenharia de Produção pela UFSCAR, em Direito pela UNESP, com MBA em Gestão Empresarial pela FIA.

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Artigo publicado no jornal digital Poder 360. Leia no link: https://www.poder360.com.br/opiniao/do-grito-de-gol-a-reforma-tributaria-e-preciso-unir-o-pais/

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